Showing posts with label Governo Federal. Show all posts
Showing posts with label Governo Federal. Show all posts

Tuesday, 22 March 2011

Mantega faz pressão para que Agnelli deixe a Vale

Ministro negocia com Bradesco saída de Agnelli
Autor(es): David Friedlander
O Estado de S. Paulo - 22/03/2011
 

Após dois anos de bombardeio pela imprensa, o governo pediu pela primeira vez ao Bradesco, de forma direta, o cargo de Roger Agnelli, presidente executivo da Vale, informa o repórter David Friedlander. Foi na sexta-feira, num encontro entre o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e Lázaro Brandão, presidente do Conselho de Administração do Bradesco, um dos principais acionistas da Vale.


Braço do banco é um dos principais acionistas da Vale; governo oficializa discussão sobre troca de comando, que ocorria apenas nos bastidores


Depois de dois anos de bombardeio pela imprensa, o governo pediu pela primeira vez ao Bradesco, de forma direta, o cargo de Roger Agnelli, presidente-executivo da Vale. Foi na última sexta-feira, numa conversa entre o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Conselho de Administração do Bradesco, Lázaro Brandão. O banco, por meio da Bradespar, é um dos principais acionistas da empresa.

O objetivo da conversa foi oficializar a intenção do governo de trocar Agnelli e iniciar a negociação em torno de um nome para substituí-lo. Dentro do banco, havia a ideia de, não sendo possível manter o executivo, organizar um processo de transição. A ideia de Mantega, no entanto, é combinar tudo agora e fazer a troca na assembleia de acionistas da Vale marcada para abril.

O ministro também disse que o governo ainda não teria preferência por um eventual substituto e propôs ao Bradesco discutir nomes de executivos de fora ou mesmo da atual diretoria. Brandão ficou de discutir o processo dentro do banco.

Procurados oficialmente e informados do assunto, Bradesco, Mantega e Agnelli preferiram não se pronunciar. A assessoria de imprensa do Ministério da Fazenda disse apenas que o ministro Guido Mantega conversa com o Bradesco sempre que necessário.

Influência.

Embora a Vale tenha sido privatizada em 1997, o governo exerce influência na companhia por meio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e de fundos de pensão de empresas estatais liderados pela Previ (dos funcionários do Banco do Brasil), que são acionistas da mineradora. Junto com a Bradespar (empresa de participações ligada ao Bradesco) e da trading japonesa Mitsui, eles controlam a Vale.

O governo nunca assumiu a intenção de trocar Agnelli, que era próximo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva até a crise de 2008. A fritura do executivo vinha sendo feita por meio de mensagens anônimas, antes atribuídas a Lula e agora à presidente Dilma Rousseff, dando conta do desconforto do Planalto com o comportamento de Agnelli na Vale.

De acordo com essas versões, o governo quer na Vale alguém mais alinhado com seus interesses e disposto a seguir uma programação planejada por Brasília. Numa comparação frequente, o governo gostaria que a Vale, maior produtora de minério de ferro do mundo e segunda maior mineradora do planeta, seguisse o exemplo da Petrobrás - embora a mineradora seja empresa privada, de capital aberto e milhões de acionistas.

Atritos.

Perto dos dez anos na presidência da Vale, Agnelli teve acesso privilegiado aos gabinetes mais importantes de Brasília durante boa parte do governo Lula. Os ventos mudaram de lado na crise global de 2008, quando a Vale demitiu funcionários e suspendeu alguns investimentos - justamente no momento em que Lula dizia que a crise internacional era uma "marolinha" e não afetaria o Brasil.

Em outro ponto de atrito, Lula prometeu construir siderúrgicas com investimento da Vale e ficou irritado com a demora da companhia em iniciar os projetos. Finalmente, a gestão de Agnelli foi criticada por ter comprado grandes navios fora do País.

Para se defender dessas críticas, a Vale respondeu que na crise contratou mais do que demitiu, que as siderúrgicas estavam demorando por problemas alheios à sua vontade e que os navios custavam no Brasil quase o dobro do que na Ásia.

Ao contrário do governo, o mercado enxerga no comportamento de Agnelli uma garantia de que a companhia estaria comprometida apenas com o retorno para seus acionistas e preservada de interesses políticos. No ano passado, a Vale obteve o maior lucro líquido da história da indústria de mineração: R$ 30,1 bilhões. Na gestão de Agnelli, a empresa passou de oitava a segunda maior mineradora do mundo.

Wednesday, 4 November 2009

VALE: Uma esfinge

por Lucio Flavio Pinto *

fonte: Adital


Se a antiga Companhia Vale do Rio Doce se transformou num monstro, como diz o presidente Lula, os governos do PSDB e do PT agiram como o médico criador, para usar a simbologia da literatura. Só mudar o presidente da companhia ou incrementar seus investimentos nada muda. Talvez apenas os recursos não contabilizados das eleições

Em 1997, o governo federal vendeu o controle acionário da Companhia Vale do Rio Doce por um valor que equivale a quatro vezes menos do que o lucro, de 13,2 bilhões de dólares, que a empresa obteve apenas no ano passado. Talvez nenhuma outra empresa privada haja registrado tanta lucratividade em todo mundo quanto a ex-estatal durante esta primeira década do século XXI. Nos onze anos que se seguiram à privatização, seu lucro líquido cresceu 29 vezes. Seu valor de mercado passou de US$ 8 bilhões para US$ 125 bilhões. Em 1997 tinha cerca de 10 mil empregados: estava azeitada depois do "enxugamento" de pessoal promovido - a suas expensas - pelo governo federal, antes de leiloá-la. Hoje, a Vale conta com 60 mil empregados. É a maior empresa privada do continente, a que mais exporta a partir do Brasil e a que mais investe no país. De cada 10 dólares líquidos de exportação, dois resultam da contribuição da empresa para as reservas nacionais, que alcançaram tamanho nunca antes registrado.

Esses números ajudam a entender a posição contraditória do país em relação à Vale e o perfil confuso da companhia. A privatização não foi um negócio limpo e muito menos rentável para o Brasil. Mesmo naquele ano de 1997, quando a litania das privatizações era entoada em coro quase uníssono e o mundo era induzido a só contemplar o lado glamouroso da globalização, e a despeito de toda a propaganda do governo Fernando Henrique Cardoso sobre as vantagens de pôr fim à condição estatal da companhia, a rememoração do episódio sempre deixa um gosto amargo no paladar da opinião pública.

Já não há mais dúvida que a alienação de 53,9% das ações ordinárias da companhia, se inevitável ou desejável, podia ser feita por um valor muito maior, sem que esse valor deixasse de ser plenamente de mercado. Analistas europeus calcularam em pelo menos três vezes mais o preço justo na ocasião. Como quase sempre acontece nessas situações, ao menos no Brasil, se a sociedade deixou de tirar as vantagens possíveis e justas do negócio, alguém saiu lucrando mais - e de forma oculta.

A reorganização societária da Vale também teve um componente de carta cifrada, de ardil. Através de vários esquemas participativos, o governo continuou a ser o maior acionista: por um caminho mais direto, através do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social); pelo mais tortuoso, através dos fundos de pensão de empresas estatais, à frente a Previ, do Banco do Brasil. Essa preponderância, entretanto, se realiza por meio de suporte institucional e aporte financeiro, mas não por deliberação ativa nas decisões da corporação. O governo jamais utilizou a ação especial, a golden share, que talvez lhe possibilitasse ajustar a condução da empresa a uma política pública específica para cada momento ou situação da trajetória da Vale. Se possuísse essas políticas setoriais.

O controle efetivo da empresa é do Bradesco, que só tem 21% da Valepar, o consórcio que possui 53,9% do controle da Vale (enquanto a Litel, que é dos fundos, tem 49% nesse consórcio estranho). O Bradesco, por ter formulado o modelo de privatização da CVRD, não podia participar da empresa, conforme as regras definidas pelo próprio banco. Mas não só participa como mantém o presidente, Roger Agnelli, no cargo desde 2001. A Mitsui, principal parceira privada japonesa na mineração, siderurgia e metalurgia no Brasil, tem 18% da Valepar, embora não pudesse entrar na Vale por ser sua cliente, outra cláusula restritiva do leilão de venda que também se tornou letra morta.

Essas cascas de banana - e vários escaninhos sombrios que surgiram com a privatização e se mantiveram até agora - lançam suspeitas sobre a Vale. Dúvidas e ressentimentos que nem o maciço trabalho de marketing e relações públicas consegue eliminar. A Vale é temida ou mesmo admirada, mas não gera confiança, não é permeável à opinião pública, arrogante e auto-suficiente como seu principal executivo. Parte considerável da sociedade recebe com reservas suas palavras, submetendo-as a checagem. Uma das conclusões dessa avaliação é que a Vale precisa mudar.

Mas não como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quer que ela mude. Muitos não concordam com os métodos de Roger Agnelli. Sua presença à frente da empresa não é um dado secundário. Pelo contrário. Ninguém, melhor do que ele, expressa a filosofia da Vale privatizada: a busca do crescimento acelerado (quase descontrolado), prioridade aos grandes acionistas, maximização da rentabilidade (não só em função de melhor processo produtivo, mas também de menores investimentos sociais), recordes de dividendos e uma visão de curto prazo dos negócios, insensível às repercussões sociais e regionais. Além de muita dose de fantasia através da propaganda.

Não há dúvida que a Vale não teria crescido tanto se não tivesse no seu comando um executivo com o dinamismo e a pertinácia de Agnelli. Para alcançar metas quantitativas impressionantes, porém, ele passou por cima da mística corporativa da estatal e dos compromissos que ela tinha (a despeito de suas distorções) com os locais nos quais atua e sua gente. Sua governança é marcadamente financeira, exclusivista e impetuosa demais, sacrificando perspectiva de mais largo prazo e cautelas. Avançando sobre graus crescentes de risco com base na sua reserva de caixa, com liquidez de 22 bilhões de dólares (contra uma dívida internacional crescente).

O gigantismo da Vale não seria perigoso se ela fosse uma empresa rigorosamente privada. Mas ela é um híbrido, sem previsão exata nos dicionários de economia ortodoxa ou nas regulamentações jurídicas pertinentes. Ela recebeu integralmente um acervo de recursos naturais e meios de logística que um Estado não passaria a uma empresa privada (nova ou de origem) sem abdicar de parte da sua soberania nessa transferência. No caso da Vale, não foi só de ativos, mas, em função do seu conjunto e do seu significado, também de poder.

O dano foi ampliado pela "multinacionalização" da Vale, em cujo escopo o Brasil já não tem a mesma ênfase de sua sede, a não ser como a fonte de procedimentos atrasados em relação ao padrão de alguns países mais adiantados onde a ex-estatal se instalou - e nos quais já está provocando crises, bem ao gosto brasileiro. Ao se internacionalizar, a Vale, ao invés de absorver os melhores procedimentos do Primeiro Mundo, em cujo círculo íntimo penetrou (ou dele se aproximou), levou para lá as sobrevivências antediluvianas do Terceiro Mundo, como a exploração da mão-de-obra, por vários meios, inclusive os aparentemente inovadoras (como a terceirização, levada ao paroxismo). Os conflitos no Canadá, onde a Vale se estabeleceu, ao adquirir a maior produtora de cobre**, a Inco, indicam que essa migração não será pacífica. E pode não ser bem sucedida.

Esse hibridismo da Vale como ex-estatal e quase-privada acarreta (ou acentua) equívocos, como o da ofensiva do Palácio do Planalto sobre a empresa. Se o presidente da república não concorda mais com os métodos do presidente da Vale, do qual até ontem era amigo de infância adotivo, que chame os prepostos do governo federal e com eles formule uma proposta a ser submetida à assembléia geral da companhia, conforme suas normas internas. O que não pode e não deve é criar um palanque para tratar dessa reorganização administrativa. Por ser um local inadequado, seu maior efeito será o de deteriorar a imagem e o valor da empresa, que, como uma sociedade anônima, operando largamente na bolsa de valores (inclusive a de Nova York), vai perder dinheiro por causa desse procedimento inadequado (e caprichoso).

O afastamento de Roger Agnelli da presidência da Vale pode retocar a face da empresa, expurgando erros agravados pelos métodos marcantes do representante do Bradesco na sociedade, mas não modificará substancialmente nada. Agnelli conseguiu se equilibrar no fio só lâmina do seu cargo e o governo voltou ao seu lugar depois que ele anunciou os investimentos que o presidente insistia que a Vale deveria adotar. Mas, em boa medida, toda essa pantomima se revelou jogo para arquibancada, uma vitória de Pirro numa batalha de Itararé, se a cosmogonia do presidente pode captar a sugestão. Exatamente porque tudo mudou para que nada mudasse.

A Vale aumentou o valor do investimento previsto para 2010 e garantiu que a pérola da coroa será mantida, a implantação da sua primeira aciaria no Pará. É esta a batalha de Itararé da candidatura da ministra Dilma Rousseff à sucessão de Lula. A candidata pode agora exibir como troféu de conquista o que podia parecer não mais do que butim para o famoso fundo de campanha com recursos não-contabilizados, que imortalizou a metodologia financeira do PT na historiografia nacional.

Todas as quatro siderúrgicas anunciadas, porém, já integravam o portfólio de investimentos da Vale (ver Jornal Pessoal 450). O que estava pendente era a convicção de que alguns dos seus itens não fossem apenas para épater le lulisme e circundantes. Agnelli apregoou - e Lula e Dilma confirmaram - que agora o compromisso é para valer, não mais para engordar a massa de manobra de Agnelli (desde que as ressalvas, envolvendo a inação ou desarticulação do poder público na logística de apoio, sejam atendidas). Mas como se pode conferir a evolução? Onde estão os números? Quem apresentou as contas de chegada?

Toda a tratativa em torno do tema se manteve no conciliábulo dos poderosos. Depois de muita verborragia, eles emergiram dos seus escaninhos com o tratado assinado nas mãos (como a tábua das leis de Moisés) para cobrar o aplauso do distinto público, mantido à distância pelos centuriões palacianos ou colocado na roda da desinteligência pela grande imprensa nacional. É para pegar ou largar, não para ler, estudar, conferir e concluir. Como a iniciativa do presidente da república, na sua ofensiva contra o presidente da Vale e pela verticalização do processo produtivo da empresa, foi política, fora das normas de procedimento existentes para esse tipo de situação, o acerto também foi político. Com isso, mais cinzento se tornou o tom de uma empresa que foi mal privatizada e esteve sujeita a voltar a um status quo ante pior.

Podia ser inimaginavelmente péssimo se o mega-especulador Eike Batista, o filho do estrategista Eliezer Batista, tivesse sido imposto, composição societária adentro, pelo governo e seus partidários. Eike não é exatamente do ramo produtivo da economia: é um fomentador de negócios à base de informações valiosas, que uns podiam chamar de privilegiadas e outros de bem fundamentadas. Alguns disseram que ele apresentou proposta de compra das ações do Bradesco insuflado pelo Palácio do Planalto, para dar um susto no banco e no seu protegido, mais do que para consumar um negócio. Outros sustentam que, à parte esse componente, houve outra motivação na iniciativa: o interesse contrariado do empresário ao tentar uma composição com a direção da Vale, para fazer o que mais sabe fazer, que é passar em frente ativos (reais ou fictícios), com fabulosa margem de lucro pela intermediação.

Mas também seria pior do que antes se para o novo perfil da companhia tivesse sido decisivo um acerto de bastidores, por debaixo dos panos, no qual haveria mútuas compensações para que o rumo continue a ser o mesmo, embora pareça novo. Certamente a manutenção de Agnelli custará muito mais do que os 180 milhões de reais de injustificados (pelos critérios comerciais) gastos em massiva propaganda através da imprensa em um ano, para contrapor às críticas do governo os argumentos da empresa.

A Vale é uma questão grave e grande demais para ser tratada com passionalismo e voluntarismo. Claro que o poder da vontade é importante e pode ser decisivo em alguns momentos. Foi assim que Getúlio Vargas arrancou dos americanos nossa primeira siderúrgica, a de Volta Redonda, aproveitando-se dos compromissos estabelecidos em função da segunda guerra mundial. Talvez outro presidente não tivesse tido a iniciativa ou não a consumaria. Os americanos é que não iriam oferecer esse alto-forno aos brasileiros por vontade própria. O elemento volitivo de um cidadão pesou nesse fato, como também houve tal componente (por parte de D. Pedro II e do engenheiro francês Gorceix) na instalação da nossa primeira escola de minas, em Ouro Preto, há mais de 150 anos.

Mas a realidade dos nossos dias não é propícia ao pleno êxito de tal voluntarismo, que constitui uma das marcas principais do presidente Lula, sob o influxo de sua estrela e as bênçãos dos deuses do Olimpo, para os quais é "o cara". O que ele quis no grito só é possível através de um esforço sistemático, profundo e bem avaliado. A Vale precisa mudar - e mudar o mais rápido possível. Mas num processo público, com os números expostos à mesa e debate intenso. Para que a Vale mude é preciso que mude todo modelo econômico, cujas origens estão na administração Collor, enfatizado por FHC e mantido substancialmente por Lula.

A Vale representa a blitzkrieg por dólares, apoiada pela Lei Kandir, que, não por coincidência, entrou em vigor no ano da privatização, proposta por um paulista, tão paulista quanto FHC e Lula, no que interessa: suas inspirações e seus atos. Os dólares vieram como nunca, muito mais do que recomendava uma interpretação correta dos acontecimentos internacionais. Na prancheta montada com base na especialização do Brasil como país exportador, era mais negócio produzir alumina do que alumínio ou minério de ferro do que aço. O Brasil venceu batalhas comerciais importantes e, estimulado por essas vitórias, deixou-se seduzir pelo paroxismo do câmbio, ignorando as necessidades existentes dentro do país e abstraindo os efeitos nocivos desse voltar-se para fora.

Essa Vale monstruosa, que só pensa em números, cifrões, negócios, dividendos e outros valores quantitativos não é produto apenas - nem principalmente - de Roger Agnelli, mas de FHC e de Lula, por sua vez agentes de protagonistas que não se apresentam sob nomes humanos, de indivíduos. O Brasil que se impôs ao mundo como vendedor excepcional de recursos naturais, na forma de commodities ou não, se continuar nessa direção vai se tornar cada vez mais um país desigual, injusto, explosivo para quem não foi chamado a entrar no clube do paraíso, do qual são sócios pessoas como Roger Agnelli, FHC e Lula. Mudar essa situação e o futuro exige mais do que o personalismo de reis, com ou sem diploma. Precisa de um empenho nacional, exercido sob a mais cristalina luz do dia, à base do exercício indispensável em tais momentos: a inteligência.

Um dos corretivos pode vir através da atualização das compensações financeiras pela extração do minério aos padrões internacionais, que, no caso do ferro, são quatro vezes maiores na Austrália. Outro caminho será taxar e vincular os lucros da empresa a partir de certo limite desejável, ou tolerável, para que os recursos oriundos dessa reserva ou fundo sejam aplicados na agregação de valor e na manutenção no Brasil dos efeitos da atividade extrativista. Como está é que não pode mais continuar. A mudança, contudo, não pode ser apropriada por meia dúzia de poderosos, como parece ser o final desse enredo burlesco.


* Jornalista paraense. Publica o Jornal Pessoal (JP)
** na verdade, níquel

Friday, 30 October 2009

Reforma do marco-legal da mineração no Brasil: aberta consulta à sociedade civil (por e-mail)

Faz tempo que o Ministério das Minas e Energia vem discutindo com o empresariado o novo marco regulatório da mineração. Agora está abrindo um canal de comunicação com a "sociedade civil", para receber sugestões e propostas a respeito por e-mail, até 30 de novembro.

Maiores informações aqui.

No mesmo site, podem-se descarregar algumas publicações sobre o Plano do Setor Mineral e questões de ordem tributária (Perspectiva Mineral 1 e 2).

Como vem sendo noticiado, tratam-se de dois projetos de lei em paralelo, com a questão dos royalties sendo tratada em separado.

Politics, labour unrest beset Vale

by Peter Koven, Financial Post

October 22, 2009

Roger Agnelli, chief executive of Brazilian mining giant Vale SA, should be a happy man these days.

With the global economy recovering and demand for iron ore on the rise, the outlook for Vale is better than it has been in months. It's no surprise the stock price has been on a tear, more than doubling in the past year. It closed at US$26.93 yesterday on the New York Stock Exchange.

But Mr. Agnelli is also dealing with a political firestorm in Brazil and employee unrest in Canada that are making life difficult for him.

Vale postponed planned investor days this week in New York and London, saying it was purely a scheduling issue. But in a sign of the company's tarnished employee relations, the United Steelworkers accused it yesterday of canceling the events to avoid difficult questions from investors.

The union, which represents about 3,500 striking Vale Inco workers in Canada, referred to Vale as a "company in disarray."

"They're hiding from us and from the public," said Bob Gallagher, head of communications for the United Steelworkers.

The Vale Inco workers have been off the job since July as they fight concessions demanded by the parent company. They are using that time to raise unrest everywhere they can. They protested in New York, Toronto and Rio de Janeiro yesterday, after doing the same in Germany and Sweden last week.

It is not the situation Mr. Agnelli envisioned when he plunked down about $19-billion to buy Inco Ltd. in 2007.

Yet the far bigger problem for him is in his native Brazil.

Vale has received a wave of criticism from Brazilian government leaders, up to and including leftist President Luiz Inacio Lula da Silva. They are angry that the company is raking in big profits this year despite laying off workers and cutting capital spending domestically.

There has been talk in Brazil that the government could dramatically increase the country's 2% mining royalty, a move that appears to be a direct shot at Vale. There were also rumors Mr. Lula wanted to remove Mr. Agnelli from his job, although that talk has died down.

"It seems that Vale is being used as a bit of a political football for the Brazilian government," said one analyst, who asked not to be named.

It was thus not surprising that when Vale announced its US$12.9-billion capital spending budget for 2010 this week, it earmarked about two-thirds of the money for projects in Brazil.

That reportedly pleased Mr. Lula. However, it has not been welcomed so much by Vale's workers in Canada, who would like to see the money spread around.

"We're trying to point that out," Mr. Gallagher said. "When you extract resources from communities, you really do have an obligation to invest in them."

Analysts noted that Vale's 37% cut in capital spending last year was not out of line with the rest of the mining sector. They suggested that the Brazilian government may be trying to rein in the company's global ambitions to make sure it stays focused on its home country. There were rumors Vale could make a major international acquisition (such as Mosaic Cos. or Freeport-McMoran Copper & Gold Inc.), but the company has denied them and focused on organic growth.

Monday, 26 October 2009

Novo marco-legal: Projeto-de-lei eleva peso do Estado na mineração

Fonte: Folha Online

O governo vai apresentar nesta terça-feira (27) aos empresários da mineração um documento com a proposta para mudança do marco legal do setor, informa reportagem de Humberto Medina e Eliane Catanhêde para a Folha (íntegra disponível para assinantes do UOL e do jornal).

O texto, ao qual a Folha teve acesso, contém dois projetos de lei a serem enviados ao Congresso em 2010: um com as mudanças institucionais e as novas regras para concessão de áreas e outro abordando a modificação nos royalties pagos pelas empresas e, possivelmente, alterando a tributação da atividade.

Um dos principais objetivos do governo com a mudança é fortalecer a presença do Estado e acabar com o que é chamado de "mineração de papel": empresas obtêm autorização para pesquisa e ficam até dez anos com a área bloqueada, sem desenvolver produção.

Intervenção do Estado

O movimento do governo federal em intervir no setor de mineração --cobrando investimentos da Vale na siderurgia e ameaçando taxar em 5% a exportação de produtos primários-- traz o risco de diminuir os recursos destinados à extração mineral nos próximos anos.

Essa chance de retração ocorre num momento delicado por dois motivos. Primeiro: com o agravamento da crise financeira global no fim do ano passado, a previsão de investimentos do setor no país para o período de cinco anos recuou de US$ 57 bilhões para US$ 47 bilhões, de acordo com o mais recente levantamento do Ibram (Instituto Brasileiro de Mineração, que reúne as empresas do segmento).

Sempre é tomado o período de meia década por ser esse o prazo necessário da prospecção ao início da exploração. A Vale domina 79% da extração nacional de minério de ferro.

Segundo: o desestímulo aos embarques que essa eventual taxação pode causar se dá na contramão do que é previsto para a procura internacional.

A recuperação da economia mundial aguardada para o próximo ano desenha trajeto promissor para as exportações brasileiras de commodities minerais. O país pode perder oportunidades se os investimentos não acompanharem o ritmo da demanda em ascensão.

Leia a reportagem completa na Folha desta segunda-feira, que já está nas bancas.

Tuesday, 20 October 2009

Vale anuncia investimento recorde de R$ 22 bi no Brasil em 2010

19/10/2009 - 20h42

Maurício Savarese, do UOL Notícias em São Paulo

O presidente da mineradora Vale, Roger Agnelli, anunciou nesta segunda-feira (19) que a empresa investirá US$ 12,9 bilhões (R$ 22 bilhões) em projetos no Brasil no ano que vem.

O executivo informou a decisão após reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que o pressionava para acelerar as injeções de recursos em meio à superação da crise financeira global.

Em maio, a Vale reduziu sua previsão de investimentos para 2009 de US$ 14,2 bi para pouco mais de US$ 9 bi, em uma decisão que irritou o Palácio do Planalto.

Agnelli, criticado por setores do governo, exibiu os números para 2010 a Lula e aos ministros Dilma Rousseff (Casa Civil) e Guido Mantega (Fazenda).

“É o maior programa de investimento realizado no país por uma empresa privada”, declarou Agnelli a jornalistas após a conversa com Lula no escritório da presidência em São Paulo.

Segundo o executivo, desse montante de investimentos, 31% irão para materiais não-ferrosos (como níquel e bauxita), 30% para seu carro-chefe (minério de ferro) e 21% para logística, e o resto será dividido entre outras áreas.

Os dois Estados que mais receberão investimentos da Vale em 2010 serão Pará, onde fica a região de Carajás, com US$ 6,8 bi, e Minas Gerais, com quase US$ 3 bi.

“O presidente Lula ficou contente com a apresentação porque percebeu que mantivemos nosso compromisso de investimento para os próximos anos”, acrescentou Agnelli, que rejeitou qualquer ingerência política na empresa.

Nos últimos dias, a imprensa relatou proximidade de membros da Vale com partidos políticos. “É preciso corrigir isso. Na nossa empresa, não há nenhum diretor que seja filiado a partido político. Nenhum”, disse o presidente da companhia.

Thursday, 15 October 2009

Ainda sobre os eventuais atritos entre a Vale e o Goveno Lula

"Parte do governo procura desestabilizar empresa, mas gente também do governo acha que ação é "atrapalhada". O comentário é de Vinicius Torres Freire, jornalista, e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 15-10-2009.

Eis o artigo.

Integrantes do primeiro escalão de Lula e que vieram do setor privado dizem que "não compreendem bem" o conflito entre o governo e a direção da Vale, mas dizem identificar num "grupo de articuladores" da candidatura de Dilma Rousseff o "núcleo dos insatisfeitos" com a empresa. Esses tais articuladores seriam também do primeiro escalão do governo e de fora dele, do PT. São pessoas para quem a Vale é uma "empresa estratégica" que não funciona como tal, por não adequar seus objetivos ao "incremento da indústria nacional". Lula, grosso modo, quer que a Vale faça aço. Hoje, fazer aço é menos rentável do que vender minérios, para a Vale. Logo, investidores privados não gostam da ideia da Vale siderúrgica.

Esses dois informantes dizem não compreender bem o conflito, "que tem muito de plantação de notícias também", porque: 1) se a insatisfação é com Roger Agnelli, haveria maneiras mais sutis e práticas de tentar afastar o executivo; 2) o governo sempre esteve bem informado sobre as mudanças nos investimentos da Vale, embora tenha sido de fato surpreendido pelas demissões na empresa; 3) o "barulho" para afastar Agnelli tornaria a operação mais difícil, pois coloca um grande banco nacional, o Bradesco, e um grande sócio estrangeiro, a Mitsui, em posição "constrangedora".

Logo, na avaliação desses informantes do governo, o projeto, ainda que "atrapalhado" e "sem muito futuro", seria o de alterar o controle da Vale. Por que "sem muito futuro"? Porque não é de um dia para o outro que algum empresário levantaria capital para comprar uma fatia relevante da Vale, porque os fundos de pensão não poderiam aumentar sua fatia do controle da empresa e porque Bradesco e Mitsui não vão se desfazer de uma hora para outra de um investimento gordo num setor quente. Para que alguma empresa entre no grupo de controle da Vale, seria necessária a aprovação dos demais controladores.

Pela avaliação desses informantes, portanto, não haveria nem plano organizado nem por ora muito factível de alterar o controle da Vale, a não ser por meio de operações financeiras exóticas e de um conflito grave e desgastante com os sócios de fato privados. Consideram que o presidente do fundo de pensão do Banco do Brasil, a Previ, não dá mostras de querer entrar num conflito aberto com seus sócios.

O presidente da Previ, Sérgio Rosa, em público até agora criticou apenas a recente campanha publicitária da Vale, na qual a empresa se defende da crítica de Lula à redução de investimentos, campanha que teria irritado o presidente. Lembram que outro fundo de pensão de estatal, a Funcef (da Caixa), faz menos de uma semana dizia em público que poderia vender sua participação na Vale (na verdade, na Litel Participações, que tem parte da Valepar, que controla a Vale). A Funcef se queixa de "ter pouca influência" na Vale. Mas os informantes observam que a Vale é um ativo importante para a Funcef. Nem seria fácil vender participação como a da Funcef, grande mas insuficiente para morder o controle da empresa. Seria preciso que a Previ entrasse no negócio, vendendo também. Ou comprando. Falta combinar com os sócios privados. Ou confrontá-los violentamente.

Para Lula, Vale está vendendo riquezas sem pensar no país

Agendada pelo ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, a última reunião de que o presidente da Vale, Roger Agnelli, participou com a cúpula do governo, em 8 de setembro, foi marcada por um bate-boca com o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Na presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do qual tinha aval, e do dirigente do BNDES, Luciano Coutinho, Mantega acusou a mineradora de apostar na crise, desprestigiar fornecedores brasileiros e recusar-se a dialogar com a União. Agnelli rebateu. Mas não convenceu: Lula considerou-se rompido com o presidente da maior empresa privada do país.

A reportagem é de Gerson Camarotti, Gustavo Paul e Geralda Doca e publicada pelo jornal O Globo, 15-10-2009.

No núcleo do governo, a avaliação é que a relação entre Lula e Agnelli está enterrada. Lula confidenciou a interlocutores sua frustração, por acreditar que a Vale está “vendendo as riquezas do subsolo brasileiro” sem pensar na industrialização do país.

Isso, sustenta, só tem um efeito prático: valorizar as ações do Bradesco e demais acionistas, sem ganho para a sociedade.

— Acho que o Agnelli já era. Ele perdeu a agenda — avaliou a líder do governo no Congresso, senadora Ideli Salvatti (PT-SC).

Para analistas, Agnelli precisa ‘sumir do noticiário’

O encontro foi no gabinete presidencial no Centro Cultural Banco do Brasil, sede provisória do governo. Como o clima já era azedo, Agnelli recorreu a Dirceu — que, quando era chefe da Casa Civil, aproximou-o de Lula — para marcar a reunião. Dirceu afirmou que o encontro seria uma tentativa de reaproximação, mas teve o efeito oposto. Segundo os relatos, o clima foi tenso e Lula evitou falar.

Coube a Mantega — aborrecido com a demissão, da diretoria da Vale, de seu ex-braço direito Demian Fiocca — externar o descontentamento oficial.

Mantega cobrou a ausência de investimentos em siderurgia, o que reforça a imagem de empresa de matéria-prima. E afirmou que a Vale não estava comprando no Brasil, numa referência à aquisição de navios no exterior. Agnelli explicou ter tentado efetuar a compra no Brasil, mas que os estaleiros não cumpririam os prazos. E disse que a Vale iria mostrar que o governo estava errado em sua avaliação.

Logo após, a empresa lançou uma ampla campanha publicitária, vista pelo governo como “resposta malcriada” e “bate-boca público” com Lula. Para a cúpula federal, Agnelli teve uma postura hostil e arrogante.

Lula começou, então a estimular a ofensiva do empresário Eike Batista, dono do Grupo EBX, as críticas dos fundos de pensão e as cobranças da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, numa operação orquestrada. Lula deixou claro seu aval à desestabilização de Agnelli ao não recebê-lo na terça-feira.

Ao perceber a aversão a seu nome no Planalto, Agnelli buscou outros setores do governo. Quando seu pedido de audiência com Lula foi recusado, ele foi ao gabinete do ministro de Minas e Energia, Edison Lobão.

— Ele queria fazer uma exposição sobre as obras da Vale no Brasil, no Maranhão, me deu um livro muito bonito — disse Lobão.

Conselheiros de Agnelli recomendam, agora, que ele evite exposição pública e não tente uma aproximação direta com o Planalto nos próximos dias.

Roger não soube manter a distância do presidente. A recomendação é recolher os flaps. Tem de sumir do noticiário para esperar a poeira baixar — disse um interlocutor de Agnelli, admitindo que este ficou “muito encantado” com seu trânsito no Planalto.

Ainda assim, eles garantem que Agnelli resistirá e que a pressão não terá efeitos práticos sobre a direção da Vale. Se ele sair agora, a ingerência política fica caracterizada, abalando a credibilidade da empresa.

— Se Roger cair, as ações da Vale desabam, e o Lula não gostaria de ser responsabilizado por isso. Além disso, os grandes acionistas (fundos, Bradesco e o japonês Mitsui) não iriam querer saber de queda de ações agora. Até porque elas ainda não voltaram aos valores pré-crise — disse um analista.

Mudanças na Vale seriam, no máximo, em diretorias

Isso foi confirmado por um alto executivo do Bradesco, que não está disposto a ceder, demitir Agnelli ou vender ações a Eike. Porém, para apaziguar os ânimos, algumas diretorias, como a de Recursos Humanos, poderiam ser trocadas.

— Mas o Roger continua — disse a fonte.

— A interferência é muito pesada. Imagine se as empresas cedem à pressão: elas vão ficar à mercê do governo.

Para analistas, o vazamento da pressão sobre Agnelli seria uma estratégia pessoal de Eike, com o aval de integrantes influentes da Presidência. O objetivo seria dar-lhe cacife para outros negócios, mostrando-o como um empresário com trânsito no governo e arrojo suficiente para abalar a Vale.

Mas o fato de Eike ter tornado pública sua vontade de adquirir a participação do Bradesco e dos fundos de pensão na Vale não faria sentido, pois não foi bem-sucedida. Afinal, no mundo dos negócios só se divulgam compra e venda de empresas depois de concluídas.

Friday, 18 September 2009

Vale convida Lula para inauguração de usina

Por Vera Saavedra Durão
Valor Econômico - 18/09/2009

O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, foi convidado pelo presidente da Vale, Roger Agnelli, para a inauguração de Vargem Grande, a 10ª pelotizadora da companhia, com capacidade de produção de 7 milhões de toneladas anuais, localizada próxima ao município de Nova Lima, em Minas Gerais. O investimento total é de R$ 2,3 bilhões.

Apesar das queixas que tem feito da Vale, o presidente Lula deverá cortar a fita de Vargem Grande. A cerimônia deve contar ainda com a presença do governador mineiro Aécio Neves. A expectativa de fontes do setor de mineração é que Agnelli e Lula "fumem o cachimbo da Paz" em Nova Lima no tocante a questão dos investimentos da companhia.

A entrada em operação da unidade de Vargem Grande acontece num momento de recuperação do mercado de minério e pelotas, com a Europa e o Japão voltando ao mercado. No primeiro semestre a Vale produziu e vendeu 7,5 milhões de toneladas do produto, ante 23,7 milhões de toneladas no mesmo período de 2008. Das suas 10 unidades, incluindo Vargem Grande, que estava em processo de rump-up, apenas três delas - Tubarão I e II e Nibrasco, todas em Tubarão (ES) - estavam em atividade.

Das sete usinas de pelotas da Vale e seus sócios japoneses localizadas em Tubarão (ES), seis já voltaram a operar. Estão paradas a pelotizadora de São Luís, no Maranhão, e a Kobrasco (ES). A Vale tem uma capacidade de produção de 65 milhões de toneladas de pelotas anuais, que com as 7 milhões de toneladas da nova unidade totalizam 72 milhões de toneladas.

Os sinais de retomada de produção que a companhia vem emitindo, inclusive anunciando reabertura de minas como a de Água Limpa, em Minas Gerais, ainda não chegaram aos trabalhadores, conforme apurou o Valor. Paulo Soares, presidente do sindicato Metabase de Itabira, disse que "a Vale não nos devolveu ainda os empregos que nos foram tirados no auge da crise". Segundo ele, Itabira teve 3,5 mil demitidos da Vale, sendo a maioria de terceirizados, que ainda não voltaram a trabalhar. Os 1,3 mil demitidos reconhecidos oficialmente pela empresa também permanecem fora da companhia.

Soares disse que os trabalhadores estão acompanhando "as pressões" que Lula vem fazendo sobre a Vale para ela investir em siderurgia e dar emprego". Segundo ele, "é óbvio para quem quiser ver que a companhia, segunda maior mineradora do mundo, tem crédito externo e interno e muito dinheiro em caixa e não precisa demitir empregado". O sindicalista anunciou que os mineiros da Vale estão se preparando para negociar um acordo coletivo com a empresa. "Já encaminhamos uma pauta de reivindicações para abrir negociação com a direção da companhia a partir do dia 20. Entramos em data-base em novembro e vamos defender nossos direitos. A crise não é mais desculpa para demissão."

Tuesday, 15 September 2009

Lula dá sinal verde a negociação de ações da Vale com Eike

Folha de São Paulo, 13/09/2010

Empresário mais rico do país mira parcela da mineradora que hoje pertence aos fundos de pensão e ao BNDESpar


Bilionário também fez proposta ao Bradesco, que considerou baixo o valor oferecido pelas ações da gigante da mineração

KENNEDY ALENCAR
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O empresário Eike Batista negocia com fundos de pensão de estatais e com o BNDESPar a compra de parte das ações dessas instituições na Vale. Segundo a Folha apurou, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu sinal verde para que as negociações prossigam.

Mais: nas tratativas, o empresário está disposto a firmar um arranjo contratual pelo qual, caso queira vender futuramente sua parte na Vale, deve dar preferência aos fundos e aos BNDESPar. Como segunda opção, a venda só poderia ser feita para um grupo nacional. Essas condições agradam ao presidente, caso o negócio venha mesmo a se concretizar.

Lula teme que, feito um negócio dessa dimensão, o comprador possa, no futuro, vender sua parte a um grupo internacional. Eike se dispõe a aceitar essas condições como forma de demonstrar que não se trata de aventura, mas de um interesse de entrar e ficar na Vale. Homem mais rico do Brasil, segundo a lista da revista americana "Forbes", Eike tem negócios em mineração, petróleo, geração de energia e logística (porto e estaleiro).

As conversas de Eike com os fundos e o BNDESPar começaram simultaneamente à negociação do empresário com o Bradesco, que também detém fatia da Vale. O BNDESPar é o braço do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) que participa como sócio de empresas.

A Vale é controlada pela Valepar, que tem 53% do capital votante da companhia. Na Valepar, o consórcio de fundos de pensão, cujo mais forte é a Previ (dos funcionários do Banco do Brasil), detém 49% das ações. A BNDESPar tem 11,5%. O Bradesco, 21%. E o grupo japonês Mitsui, 18%. Os outros fundos que têm participação na Vale são Petros (Petrobras) e Funcesp (Cesp).

Hoje, um arranjo de acionistas permite que o Bradesco indique o presidente da Vale.

A depender de quanto Eike comprar -se vier mesmo a comprar-, ele poderia ser uma opção de gestor na hipótese de um novo acordo de acionistas assim determinar.

Apesar de ter selado a paz com Roger Agnelli, presidente da Vale, Lula ficou insatisfeito com a condução do executivo durante a fase aguda da crise financeira global.

Lula se queixou reservada e publicamente da Vale e de Agnelli. O presidente reclamou do corte de US$ 3 bilhões em investimentos e de demissões de mais de mil funcionários sem aviso ao governo.

Para ele, a Vale passou um sinal ruim, uma expectativa negativa, numa hora em que o governo se esforçava para evitar um colapso econômico.

Eike e Bradesco

Segundo a Folha apurou, o Bradesco considerou baixa a recente proposta de Eike pela parte do banco na Vale. A avaliação do Bradesco é que o momento é bom para comprar, mas não para vender.

Ou seja, avalia que a melhora do cenário econômico doméstico ainda está em andamento e que as suas participações em empresas tenderão a se valorizar nos próximos meses. Mais: o banco está com grande liquidez. Trocando em miúdos, tem o caixa cheio.

A venda da participação na Vale, segundo a cúpula do Bradesco, seria justificável apenas para realizar uma grande compra de um banco a fim de fortalecer o seu negócio principal.

Como há dificuldade para uma operação desse tipo no atual mercado bancário brasileiro, o Bradesco preferiu recusar o primeiro lance oficial de Eike, como revelado por reportagem da Folha.

Alguns ministros, como Dilma Rousseff (Casa Civil) e Guido Mantega (Fazenda), veem com simpatia a investida de Eike para entrar na Vale. Apesar disso, o governo não pretende jogar seu peso político para obrigar o Bradesco a vender sua participação na empresa.

Nas palavras de um ministro, seria uma briga que não valeria a pena comprar, apesar de toda a insatisfação de Lula com a gestão de Agnelli durante a fase mais crítica da crise internacional. Lula jogou pesado, chegando a insinuar nos bastidores que poderia usar a força do governo com os fundos de pensão e o BNDES para tirar o Bradesco do comando da empresa.

Apesar da reaproximação entre Lula e Agnelli, que se encontraram recentemente em Brasília, ministros continuam a dizer que a Vale errou durante a crise e perdeu pontos com o governo.
Enquanto isso, Eike disse a Lula e à ministra Dilma que tem interesse em dar à Vale uma gestão mais estratégica. Leia-se: maior foco em desenvolver a indústria que gira em torno do minério. Atualmente, o foco da Vale é a exportação de commodities.

Friday, 11 September 2009

Anglo Ferrous Brazil critica possível aumento de royalties


Fonte: UOL Economia


RIO - O presidente da Anglo Ferrous Brazil, Stephan Weber, criticou a proposta de aumento dos royalties pagos pelo setor de mineração no Brasil. O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, já afirmou que, depois de fechada a proposta para o marco regulatório do pré-sal, o governo vai se debruçar sobre as participações pagas pelas mineradoras.

Para Weber, a comparação com a Austrália - onde os royalties minerais são mais altos - desconsidera o peso da carga tributária, que é mais elevada no Brasil. Segundo ele, o minério brasileiro já é menos competitivo que o australiano no que diz respeito ao peso dos impostos.

"Acho que é dar um tiro no pé (aumentar os royalties). Temos que tentar informar quais são os riscos. Nossos impostos são altos e isso é um problema de competitividade para o Brasil", disse Weber, que participou de palestra na Câmara Britânica, no Rio de Janeiro.

De acordo com ele, a expectativa da Anglo American - controladora da Anglo Ferrous Brasil - é que os três principais projetos em implantação na América do Sul passem a ser responsáveis, em 2013 ou 2014, por cerca de metade de todo o faturamento da companhia.

Atualmente, a Anglo trabalha para implantar o projeto Minas-Rio, de US$ 3,627 bilhões para produção de até 26,5 milhões de toneladas a partir de 2014. Na área de níquel, pretende iniciar em 2011 a produção em Goiás, no projeto de Barro Alto, orçado em US$ 1,5 bilhão para produção de até 36 mil toneladas métricas por ano.

"Níquel não é o foco da Anglo, mas o custo é tão bom que estamos na fatia de 25% dos projetos de menor custo do mercado", afirmou Weber, lembrando que mundialmente o foco da empresa está no minério de ferro, diamantes, cobre, platina e carvão.

O terceiro projeto de vulto na América do Sul é Los Bronces, para produção de cobre no Chile. Juntos, os três projetos no continente foram os três, de um universo de seis, que foram mantidos mesmo com o agravamento da crise internacional.

(Rafael Rosas | Valor Online)

Pres. Lula says Vale should buy Brazilian ships


BRASILIA, Sept 11 (Reuters) - Brazilian President Luiz Inacio Lula da Silva has called on the country's iron ore miner Vale, the world's largest, to favor local industry in the purchase of large items such as ships to create more jobs in the South American country.

Lula has publicly criticized the firm, one of Brazil's flagship companies, on several occasions in recent weeks. In the past, Lula has called on Vale to establish steel mills to refine the iron ore it mines locally to increase employment for the country's 190 million residents.

"It's impossible that Vale do Rio Doce should continue buying ships in China when we are setting up a naval industry here," Lula said at the christening of a new ship built at a shipyard in Pernambuco in the country's northeast.

Vale last year placed a $1.6 billion order for a dozen of the largest class of ore carriers from a Chinese shipbuilder Jiangsu Rongsheng Heavy Industries Co Ltd. The ships, for delivery in 2011 and 2012, can each hold 400,000 tonnes.

Lula did not explicitly call on Vale to back out of this contract but dismissed the firm's argument Brazil could not provide these ships, saying local shipbuilder Atlantico Sul was now able to make vessels to this specification.

"They said they are ready and made the commitment that next week there would be a meeting between Atlantico Sul, (Vale Chief Executive Officer) Roger Agnelli and the naval industry to find out if it is possible, because I told comrade Roger we need to think about Brazil," Lula said.

Lula is approaching the end of his second mandate and cannot run for a third under constitutional rules. Instead he is focusing on propping up his preferred candidate, chief of staff and fellow Labor Party member, Dilma Rousseff.

Lula will also be under pressure to show he has tried to make good on an election campaign promise to create millions of jobs in the country whose increasing wealth still flows mainly to a small portion of the population.

Local newspapers have been reporting that Lula's government has been pressuring Vale to invest more in Brazilian industries such as steel and may have even tried to thwart Vale's reported bid for fertilizer giant Mosaic.

Vale's position in the past has been that they are not interested in getting into the steel sector where they would essentially be competing with their clients.

(Reporting by Fernando Exman; writing by Peter Murphy; editing by Reese Ewing and Lisa Shumaker)

Lula critica presidente da Vale por comprar navios na China


BRASÍLIA (Reuters) - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva cobrou nesta sexta-feira do presidente da Vale, Roger Agnelli, maiores investimentos da mineradora nas indústrias naval e siderúrgica do Brasil.

Lula aproveitou um evento em Pernambuco, no estaleiro Atlântico Sul, para lembrar que empresas brasileiras de grande porte têm que investir mais no país.

"É impossível a Vale continuar comprando navio na China quando a gente está montando a indústria naval aqui", afirmou Lula a jornalistas.

"Ele disse para mim que a indústria naval brasileira não fabricava navio de 400 (mil) toneladas. Eu agora conversei com o Atlântico Sul. Você vai comprar um pouco mais barato, mas você está gerando emprego na China, gerando pagamento de salário na China. Isso muito importa para o país. Então nós vamos ter que construir no Brasil", completou.

Lula participou nesta sexta-feira --ao lado do presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli-- do batimento de quilha do primeiro navio do Programa de Modernização e Expansão da Frota (Promef), de um total de 49.

O batimento da quilha é uma cerimônia tradicional da indústria naval que simboliza o início da montagem do navio.

No ano passado, a Vale assinou um contrato de 1,6 bilhão de dólares com a chinesa Rongsheng Shipbuilding and Heavy Industries para construção de 12 navios para sua frota própria, com capacidade para 400 mil toneladas cada.

Neste ano, a Vale fez 49 encomendas a estaleiros brasileiros, que incluem 15 rebocadores, 32 barcaças e 2 empurradores.

Lula afirmou ainda que discutiu com Agnelli investimentos em siderurgia. Nesta semana, ele e o presidente da Vale se reuniram para tratar do programa de investimentos da mineradora, após vários comentários públicos de Lula sobre o assunto.

"Nós estamos discutindo há pelos menos uns quatro anos uma siderurgia no Espírito Santo, uma no Ceará, uma no Pará. Eu disse ao Roger que é preciso a gente começar a construir essas siderúrgicas porque era para a gente ter começado a construir no auge da crise", disse ele.

A Vale aumentou recentemente sua participação na Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA) para viabilizar o término do investimento que faz em parceria com a alemã Thyssenkrupp no Rio de Janeiro. Anunciou também que vai começar a construir sozinha uma siderúrgica no Espírito Santo, após a desistência da chinesa Baosteel.

A mineradora deverá tentar atrair sócios depois de obtida a licença ambiental, já que não pretende ter posição majoritária no empreendimento.

(Por Fernando Exman e Camila Moreira)

Agnelli tenta aproximar Vale do governo em visita a Lula

por Claudia Safatle e Paulo de Tarso Lyra
Valor Econômico - 11/09/2009



A reunião entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente da Vale, Roger Agnelli, terça-feira, serviu para a empresa começar a aparar as enormes arestas criadas junto ao governo, por suas ações consideradas precipitadas durante a crise financeira global e, também, pela resistência da empresa em investir na área siderúrgica, que é uma antiga demanda de Lula.

O relato do encontro, feito por fontes oficiais, é bastante lacônico: a reunião foi boa e o presidente Lula teria ficado satisfeito com as informações repassadas por Agnelli, disse um dos participantes. Essas mesmas fontes negaram que esteja em curso uma ação do governo para substituir Agnelli no comando da Vale e alegaram que, na reunião, não se tratou de questões tipicamente privadas, como a possível venda das ações da Bradespar na Vale para o empresário Eike Batista. Ele teria feito uma de R$ 9 bilhões, que teria sido recusada pelo Bradesco. O comentário de um ministro ao Valor foi de que não caberia ao governo opinar sobre essa negociação. "Também não sei o que mudaria caso Eike conseguisse comprar a parte do Bradesco", disse.

A insatisfação de Lula com a mineradora tem razões diversas. O presidente acha que a empresa não pode só "abrir buracos, extrair o minério de ferro e exportar". Ela deve agregar valor e, para isso, não é de hoje que Lula insiste para que a companhia construa usinas siderúrgicas no Pará, no Espírito Santo, no Ceará e no Rio de Janeiro.

A reação da Vale, de demitir 1,3 mil funcionários em dezembro de 2008, no auge da crise financeira global, foi muito mal vista pelo governo que estava, naquele momento, criando medidas para garantir a atividade industrial e os empregos. Para fontes oficiais, a reação da companhia, que também cancelou investimentos, foi precipitada, desnecessária e o governo tomou conhecimento da notícia pelos jornais. Um ministro, ontem, lembrou que apesar de ser uma empresa privada, a maior parte do capital acionário da Vale está nas mãos de fundos de pensão estatais, com a Previ à frente, e do BNDES. Os demais sócios são o Bradespar e o grupo japonês Mitsui. "O principal acionista da Vale é o governo", sublinhou essa fonte, deixando um alerta: "o Agnelli foi eleito com o voto de todos os sócios e não apenas do Bradesco".

A importação de US$ 350 milhões em bens de capital e a compra de 12 navios graneleiros de US$ 130 milhões cada um, ambos da China, também causou irritação ao Planalto. O presidente Lula tem como política que demandas dessa natureza devem privilegiar primeiramente a indústria nacional. As queixas da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) e do Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval (Sinaval) chegaram à reunião de agosto do Grupo de Acompanhamento da Crise (GAC), coordenado pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega. A Vale, na ocasião, reagiu às reclamações e disse que o presidente do Sinaval havia recebido propostas da mineradora para a compra de navios construídos no país e nem dera resposta.

O argumento da Vale de que não pode expandir seus negócios no setor de aço para não fazer concorrência com seus próprios clientes, também não conseguiu convencer o governo federal. "Existe uma série de outros mercados nos quais a empresa pode entrar, sem que isto signifique concorrência desleal com seus compradores", defendeu uma outra fonte graduada. Também estavam na reunião de terça-feira o ministro da Fazenda e o presidente do BNDES, Luciano Coutinho.

Wednesday, 26 August 2009

Agnelli balança, mas, por enquanto, não cai

José Rabelo
Século Diário, Vitória-ES
252009

O boato que corria à boca miúda em Brasília, desde meados de julho, tornou-se público há alguns dias quando a imprensa revelou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu mexer seus pauzinhos para fazer chegar aos ouvidos do presidente da Vale, Roger Agnelli, que estava insatisfeito com os rumos administrativos adotados pela mineradora para contornar a crise econômica mundial. Para ocupar o lugar de Agnelli, Lula chegou a ventilar o nome de Sérgio Rosa, presidente da Previ (Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil).

Cuidadoso para não abalar a relação com um dos maiores bancos do País, o Bradesco - que indicou Agnelli, em 2001, para assumir a presidência da empresa -, Lula foi cirúrgico na crítica. Ficou particularmente irritado com a demissão de cerca de mil trabalhadores, no auge da crise, sem comunicação prévia ao governo. A decisão unilateral da empresa não deu chance à “brigada de incêndio” de Lula de propor uma solução negociada para evitar degola em massa, como aconteceu, por exemplo, em fevereiro deste ano, em um episódio semelhante envolvendo as demissões na Embraer.

Lula também se queixou da brusca freada nos investimentos da empresa no setor de infraestrutura do País. Notícias que vinham do mercado financeiro apontavam que a gigante da mineração deixaria de investir US$ 3 bilhões em novos projetos este ano, temendo que os reveses da crise minassem a saúde financeira da empresa.

Para o presidente Lula, na hora do aperto, uma empresa com a robustez financeira da Vale, e com seu histórico estatal, tinha a obrigação de arregaçar as mangas e puxar a fila do grupo de empresas dispostas a mostrar que o País tinha fôlego suficiente para enfrentar e vencer o "monstro da crise".

O descontentamento de Lula com Agnelli era tão grande que circulou em Brasília que o presidente já articulava um substituto para ocupar o posto do número um da Vale. Lula já tinha até um nome na gaveta para assumir a vaga de Agnelli, Sérgio Rosa (foto), atual presidente da Previ - maior fundo de pensão da América Latina, que detém o rechonchudo patrimônio de R$ 121 bilhões.

Não por acaso, entre as empresas que a Previ tem participação está a Vale. É justamente na mineradora que a Previ concentra o seu maior investimento: R$ 30 bilhões. O fundo também detém 53% da Valepar, controladora da empresa.

O nome de Sérgio Rosa também não surgiu na lista dos preferidos de Lula por mera contingência do destino. Rosa tem uma história política com Lula e o PT desde os tempos em que Lula-sindicalista subia nos caminhões para comandar as greves no ABC. De quebra, Rosa é justamente presidente do Conselho da Vale, assento que lhe confere o poder de veto nas decisões da mineradora.

O poder dos fundos

A Previ, além da Vale, detém gordas fatias acionárias de grandes empresas brasileiras. Oi/Telemar, Embraer, Brasil Foods são alguns exemplos. Na Vale, o consórcio formado pelos fundos de pensão - Previ (49%) e BNDESPar (11,5%) - detém 60,5% do controle da empresa. O Banco Bradesco, responsável pela indicação de Agnelli, tem 21%, e a japonesa Mitsui - empresa da área de logística de transporte intermodal - 18%.

Lula sabia que o poder dos fundos de pensão sobre a Vale poderia ser decisivo, caso o plano de fritar Agnelli fosse posto em prática. Além da Previ e BNDESPar, Lula sabia que outros fundos previdenciários - Funcef (Fundo de Previdência da Caixa Econômica Federal), Petros (Petrobras) e Funcesp (Cesp) - já engrossavam o coro dos descontentes com a gestão de Agnelli.


Guilherme Lacerda (foto), presidente do Funcef, terceiro maior fundo do País, também cobrou, a exemplo de Lula, a ampliação dos investimentos da mineradora no setor de infraestrutura do País.

"A Vale não pode agir como uma empresa de frango, de linguiça. É uma empresa estruturante, que atua por concessões. É bem administrada, mas não podemos fechar os olhos e não nos dar conta das decisões tomadas por seu presidente", disse Lacerda, no último domingo (16), ao jornal "Folha de São Paulo".

De acordo com Lacerda, a mineradora deve aplicar seu capital em investimentos que abram caminhos para o desenvolvimento do País, sem a concentração de recursos apenas na área de commodities. O presidente do Funcef fez questão de lembrar que a Vale atua por concessões e que uma das contrapartidas deve ser o investimento na área de infraestrutura do País. Ele advertiu ainda que a empresa, em função de seu histórico estatal, não pode se preocupar exclusivamente em maximizar lucros.

O Funcef é acionista minoritária da Vale, possui 2% do capital total da empresa. A fatia mais magra na participação acionária, diferentemente da poderosa Previ, não garante ao Funcef assento no Conselho Administrativo da Vale, consequentemente, o fundo comandado por Lacerda fica expurgado das discussões que definem os investimentos da empresa.

O fato é que o vento que soprou do Palácio do Planalto chegou a balançar Agnelli da cadeira. Entretanto, os rumores mais recentes que chegam de Brasília parecem indicar que essa rajada mais enfurecida, pelo menos por hora, perdeu força. Parece que a conversa de Agnelli com Lula acalmou o presidente, que pode ter dado uma segunda chance ao maioral da Vale.

Agnelli sabe, porém, que o fato de o presidente ter cogitado para a cabeça da lista o nome de Sérgio Rosa como seu "provável" sucessor soa mais que um aviso, mas é, com todas as letras, uma ameaça real.

O atual manager da Vale também sabe que Rosa disputou e venceu, com louvor, a queda de braço com o todo poderoso Daniel Dantas, dono do Opportunity. Vitória que lhe conferiu bônus extras com o presidente Lula.

Rosa - então diretor de Participações da Previ - deu o start, em 1999, a uma auditoria para rever os contratos da Previ com o Opportunity no fundo CVC-Opportunity, que adquiriu, à época, a Brasil Telecom, Telemig, Amazonas Celular e Metrô Rio. Segundo Rosa, o acordo era prejudicial ao fundo e precisava ser urgentemente revisto.

A peleja, que só chegou ao final em abril de 2008, acabou selando o acordo que tirou definitivamente o Opportunity do "indesejável" Dantas da sociedade. Com o acordo, o banqueiro recebeu R$ 1 bilhão para dar adeus a sua participação na antiga Brasil Telecom que passou a se chamar Oi e depois Oi/Telemar.

Esse é um exemplo recente e inconteste que deve causar arrepios no presidente da Vale. Agnelli sabe que não pode desdenhar da força dos fundos de previdência, ainda mais tendo por perto o implacável Sérgio Rosa fungando no seu cangote. Se Agnelli comanda cerca de 100 mil funcionários (diretos e terceirizados), Rosa tem nas mãos o fundo formado por mais de 166 mil pessoas, entre aposentados, pensionistas e funcionários ativos do Banco do Brasil. Briga de cachorro grande.

Sobre o entrevero que pôs em xeque o nome de Agnelli no comando da Vale, Sérgio Rosa, por enquanto, preferiu se resguardar. Talvez o silêncio tenha sido a estratégia escolhida. É oportuno lembrar, porém, que Rosa deixa a presidência da Previ em 2010, e não poderá ser reconduzido ao cargo novamente. Uma coisa é certa, desempregado ele não fica.

Investidores insatisfeitos, ambientalistas idem

Se os fundos e o próprio presidente da República têm se mostrado insatisfeitos com a governança de Roger Agnelli à frente da Vale, os ambientalistas, de olho na política de responsabilidade social da empresa, também continuam indignados com as parcas ações que a poluidora tem adotado para minimizar os danos ambientais no Estado.

Na última terça-feira (18), o jornal "Valor Econômico" informou que a mineradora apresentou seu inventário de emissões, para medir a produção de gases-estufa. A empresa, segundo suas contas, admite que lançou, nos oito países (incluindo o Brasil) em que atua, 16,8 milhões de toneladas CO2 - principal gás do efeito estufa. O CO2 conhecido também como dióxido de carbono, ou anidrido carbônico, ou simplesmente gás carbônico é um composto químico constituído por dois átomos de oxigénio e um átomo de carbono.

O relatório detalha, ano a ano, as emissões na Austrália, mas simplesmente ignora as informações referentes ao Espírito Santo. A omissão dos dados referentes ao Estado dá pistas de que os números aqui devem ser bem feios, talvez impublicáveis.

Ainda, de acordo com informações do "Valor", o total mundial emitido pela mineradora contabiliza os gases produzidos na queima de combustíveis fósseis do transporte de minérios à emissão de minas de carvão subterrâneas na Austrália, além dos gases-estufa gerados pelos fornecedores da empresa em 34 países, sendo que o Brasil responde por 69,1% deste total. Isso significa que 11,6 milhões de CO2 foram despejados na atmosfera brasileira pela mineradora. Para se ter uma ideia da grandeza do número, em 2006, as indústrias brasileiras, juntas, lançaram 29 milhões de CO2 no ar. Os dados do inventário da Vale, embora sejam de 2008, se comparados a 2006, sozinha, a poluidora responderia pela emissão de mais de um terço de todo o CO2 despejado no Brasil.

Espólio sombrio

O inventário da Vale deixa evidente que a curva de emissões da mineradora, mesmo com a crise econômica mundial, está em ascensão em todo o mundo, seja diretamente nos oito países em que opera ou indiretamente nas dezenas de outros países que fornecem algum tipo de "energia suja" à mineradora, como uma térmica a carvão, por exemplo.

Os dados do inventário revelam que a empresa reserva para os países que a abrigam um espólio sombrio. Em 2006 foram 10,8 milhões de toneladas de CO2; em 2007, 15,2 milhões, e no ano passado, 16,8 milhões.

O preço do desenvolvimento a qualquer custo é alto e a fatura será cobrada com juro e correção num futuro bem mais próximo do que se imagina. Quem vai pagar a conta são as próximas gerações.

Quanto custa o desenvolvimento?

O discurso desenvolvimentista do governador Paulo Hartung, travestido pelo engodo chamado ES 2025, é um exemplo patente de um Estado que está vendendo a sua alma ao diabo em troca da “equação mágica“: desenvolvimento = geração de emprego2.

A política ES 2025, fundamentada na lógica do desenvolvimento a qualquer custo, está loteando e entregando o Estado de mão beijada às grandes poluidoras, como Vale, Samarco, Aracruz, só para ficar em três exemplos.

Os incentivos oferecidos às empresas pelo Estado são irrecusáveis: licenças ambientais fornecidas no ato da assinatura do contrato, isenções de impostos e "cobertura jurídica" para tocar os negócios sem ser incomodado. De quebra, o investidor recebe uma frase incentivadora de pé de ouvido na hora em que está com a caneta na mão, prestes a assinar o contrato: "Faça de nosso Estado o seu quintal".

Os empresários têm levado a sério as recomendações do governo. Tanto é que anunciaram esta semana um vultoso investimento em Anchieta (sul do Estado). O município que recentemente escapou de abrigar uma megasiderúrgica - que seria implantada pelo consórcio Vale-Baosteel -, vai receber investimentos de três gigantes: Vale, Petrobras e Samarco. Esta última, que já atua no município, anunciou que vai construir a quarta usina de pelotização.

A empresa não informou, mesmo porque ninguém disse que isso era importante, quais os danos ambientais que uma quarta pelotizadora causará à região. Porém, anunciou, orgulhosa, que 5,5 mil empregos serão criados durante a construção da nova planta industrial. Depois de pronta, a pelotizadora deve empregar um "fabuloso" contingente de 400 trabalhadores.

A Petrobras anunciou que vai investir R$ 1 bilhão em um porto-base em Ubu, que deve ficar pronto em 2013. A expectativa da empresa é gerar 1,8 mil postos de trabalho. Os impactos ambientais no novo porto para o ecossistema marinho ainda não foi anunciado.

Na mesma balada, a Vale de Agnelli, querendo mostrar serviço ao presidente Lula depois do arrocho que sofreu, também confirmou a construção de uma siderúrgica em Anchieta, que deve começar a operar em 2014. Para produzir 5 milhões de toneladas de placas de aço por ano a empresa deve empregar cerca de 3 mil trabalhadores.

A Vale ainda não calculou a quantidade de CO2 que o novo empreendimento deve emitir. Mas parece que isso também não é muito importante agora. Urgente mesmo era encontrar uma solução para os empresários que já haviam enterrado fortunas em Anchieta à espera do empreendimento Vale- Baosteel que naufragou e deixou um monte de “investidor-especulador” na saudade.

Quando à emissão de CO2, vamos aguardar, pacientemente, um novo inventário. Se tivermos sorte, talvez ainda saia antes dos nossos próprios inventários.

Monday, 24 August 2009

Após pré-sal, Vale é "alvo" de ação de Lula

KENNEDY ALENCAR
Fonte: Folha Online - 23/8/2009

Ao anunciar a sua proposta de nova Lei do Petróleo no final do mês, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva oficializará uma inflexão no papel do Estado brasileiro: o governo passará a ter maior ação na economia.

Nos seis anos e oito meses de governo, Lula aumentou a influência do Palácio do Planalto sobre a Petrobras. Concluída a proposta de novo marco regulatório para o petróleo, Lula deverá aumentar a pressão sobre a Companhia Vale do Rio Doce.

A Petrobras é uma estatal de capital misto na qual o governo tem a maioria das ações com direito a voto. O governo indica o seu presidente. No entanto, do capital total, 60% estão em mãos privadas.

A Vale, a maior empresa brasileira depois da Petrobras, é uma companhia de capital misto também, mas um pouco diferente. O governo não interfere diretamente na gestão da Vale como faz na Petrobras, mas tem feito pressões para influenciar os rumos da administração da empresa.
Do capital com direito a voto, a Valepar tem 53% das ações da Vale. Na Valepar, um consórcio de fundos de pensão detém 49% das ações. O BNDESPar tem 11,5%. O Bradesco, 21%. E o Mitsui, 18%.

Ou seja, o Bradesco comanda a empresa por meio de um acordo de acionistas. O banco indicou Roger Agnelli para presidir a Vale. Mas uma eventual aliança entre a Previ e o BNDESpar, que é o braço do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), para participar de empresas, poderia indicar um novo presidente. O governo tem enorme influência sobre os fundos de pensão das estatais.

Nos bastidores, o governo Lula ameaçou interferir no comando administrativo da Vale a fim de levar a empresa a fazer investimentos considerados estratégicos pelo Planalto --sobretudo na área de siderurgia. Lula mandou um recado ao Bradesco. Insatisfeito com a ação da Vale durante a fase mais aguda da crise global, o presidente deseja que a companhia ouça mais o governo.
Agnelli e o Bradesco não gostam da revelação pública da pressão de Lula, mas ela existe e tem sido sentida pelo executivo e pelo banco. Em conversa reservada recentemente, Agnelli procurou selar a paz com Lula, sendo bastante cordato ao usar as palavras a fim de explicar ao presidente decisões da empresa.

Lula considera que a Vale "amarelou" no começo da crise, cortando investimentos e demitindo trabalhadores numa hora em que o governo, que sempre atendera aos pedidos da empresa, insistia na manutenção de expectativas positivas. A Vale frustrou parte desse plano, levando outras empresas a adotar o mesmo caminho, dizem auxiliares do presidente.

Na visão do governo, a Vale e os bancos privados erraram. A lucratividade do Banco do Brasil, a diminuição do desemprego e o aumento da renda evidenciariam um pessimismo desnecessário do setor privado brasileiro.

Ora, se as empresas gostam de recorrer ao Estado para tomar recursos públicos ou se aliar a fundos de pensão que sofrem influência do governo, deveriam tratar como normal algum nível de intervenção estatal. Pegar dinheiro público e tratar como se fosse privado é fácil. É capitalismo sem risco.

Nesse sentido, Lula está certo ao pressionar a Vale e ao recuperar a influência política sobre as ações estratégicas da Petrobras. O presidente avalia que as ações dos governos na crise global reforçaram seus argumentos. E ele pegou gosto pela coisa.

As grandes empresas privadas que têm o governo como sócio serão mais pressionadas por Lula daqui em diante.

Wednesday, 29 April 2009

Primeiro de Maio: Direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, e não das empresas!


Em celebração ao dia histórico de luta pelos direito dos trabalhadores e das trabalhadoras, o presidente Lula visitará, no dia 30 de abril, o canteiro de obras da Companhia Siderúrgica do Atlântico (TKCSA). A visita tem como objetivo assinar a 30.000ª carteira de trabalho resultante das obras. No dia primeiro de maio, quando organizações sindicais e sociais estarão nas ruas em todo o mundo, organizações e movimentos sociais no Rio de Janeiro realizarão um grande ato unificado contra a TKCSA na porta da empresa. Desde o início das obras da TKCSA, um conglomerado entre a VALE e a alemã THYSSEN KRUPP, a empresa vem violando a legislação brasileira, colocando na miséria os trabalhadores e trabalhadoras, e destruindo o meio ambiente. Denunciamos abaixo as principais irregularidades que a TKCSA vem cometendo:

A NATUREZA: O canteiro de obras da TKCSA localiza-se numa Área de Preservação Permanente (APP) protegida pela União, dentro de uma Reserva Arqueológica e Biológica em área costeira. Sem licença ambiental do IBAMA, e mesmo sendo embargadas e interditadas pelos órgãos de fiscalização, as obras seguem, envolvidas em inúmeras irregularidades e destruição da fauna e flora local.
MILÍCIAS: A região em que a empresa se instala é conhecida por ser palco de uma das mais perigosas milícias que atuam no Rio de Janeiro. No dia 19 de março, a Comissão de Direitos Humanos da ALERJ realizou uma audiência pública com o objetivo de averiguar denúncias de conexão entre os seguranças da empresa e as milícias. Esses seguranças ameaçavam e perseguiam trabalhadores e pescadores que se opunham às obras. Nesta ocasião ficou claro que o chefe de segurança patrimonial da empresa não só era quem ameaçava os pescadores como era integrante da milícia da região.
O TRABALHO: Para reduzir custos a TKCSA contrata imigrantes, principalmente chineses e nordestinos. As promessas de geração de empregos maciça para a população local jamais se concretizaram. A mídia propagandeia a 30.000ª carteira assinada, mas esquece de mencionar a qualidade dos empregos gerados e a altíssima rotatividade dos empregados no canteiro de obras, com o objetivo de reduzir os encargos dos contratados (evita o vínculo empregatício). Ano passado foram encontrados 120 chineses trabalhando no canteiro de obras sem nenhum contrato. Esses trabalhadores enfrentam péssimas condições de vida e de trabalho e sofrem ameaças da milícia.
A POPULAÇÃO LOCAL: A TKCSA traz desemprego e miséria às 8.075 famílias de pescadores artesanais e maricultores da região. Com as obras e a contaminação das águas ocasionadas pelas dragagens, esgotam-se os recursos pesqueiros. Além disso os portos aumentarão as áreas de exclusão de pesca, afetando duramente os pescadores mais pobres. O complexo siderúrgico trará também sérios riscos à saúde, com aumento da poluição e exposição constante a agentes químicos que ocasionam desde doenças respiratórias a certos tipos de câncer.

Tendo em vista todas estas denúncias, já divulgadas em diversas instâncias nacionais e internacionais, as organizações da sociedade civil do Brasil e da Alemanha abaixo assinadas exigem que o governo brasileiro tome todas as providências devidas para fazer cumprir a legislação nacional, respeitando os direitos humanos e trabalhistas da população, e preservando o meio ambiente, que é sua fonte de vida e trabalho. Exigimos também que o governo da Alemanha, sede da THYSSEN KRUPP, tome todas as providências devidas para fiscalizar e monitorar este investimento externo, fazendo com que ele siga os mesmos padrões ambientais e de direitos humanos e trabalhistas vigentes dentro da Alemanha.

O dia primeiro de maio é da luta histórica da classe trabalhadora! Repudiamos assim a presença do presidente Lula na TKCSA! Exigimos respeito aos direitos humanos, trabalhistas, sociais e ambientais da classe trabalhadora da Zona Oeste do Rio de Janeiro!

Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS)
Forschungs- und Documentationszentrum Chile-Lateinamerika (FDCL)
Koordinierungskreis Brasilien (KoBra)
Campanha Justiça nos Trilhos

Wednesday, 8 April 2009

Artigo: A Vale do Rio Doce, a CUT e o Governo Lula

Por Paulo Passarinho

Fonte: Correio da Cidadania

A CUT promoveu em 11 de fevereiro último, em várias capitais, um Dia Nacional de Lutas, em defesa do emprego e dos salários. No Rio de Janeiro, em ato que contou com o apoio da Conlutas, e a presença do próprio presidente da Central, Artur Henrique, a manifestação ocorreu em frente à sede da Vale do Rio Doce.

Nada mais justo e simbólico para a escolha do local da manifestação. Afinal, a Vale do Rio Doce, a segunda maior mineradora do mundo, está no centro de uma disputa judicial que já se arrasta há mais de onze anos na justiça – por força das gritantes irregularidades observadas por ocasião da transferência do seu controle acionário, em 1997. Além disso, em meio à atual crise econômica, pontificou a sua ação com cerca de 12.000 demissões de trabalhadores diretos e terceirizados, de acordo com denúncias da própria CUT. Roger Agnelli, seu atual presidente – e executivo com acesso direto a Lula – defende abertamente a flexibilização da legislação trabalhista, como forma de facilitar a demissão de trabalhadores.

Sem desmerecer a importância das manifestações e protestos que devem tomar as ruas e contribuir para o esclarecimento e mobilização dos trabalhadores na luta contra a crise e o desemprego, todo o processo que se desenvolve no interior do comando da empresa Vale do Rio Doce deveria merecer uma maior atenção da CUT e de seus principais dirigentes.

Talvez, a solução ou a pressão para uma mudança substantiva na empresa esteja muito mais próxima da Central sindical do que os menos informados possam imaginar.

A Vale do Rio Doce é uma empresa de capital aberto, com a maior parte de suas ações negociadas em bolsas de valores, mesmo antes de sua polêmica e, para muitos, criminosa transferência para as mãos privadas, em meio às privatizações realizadas no governo de FHC.

Em 1997, ano da chamada "privatização" da Vale, o que teria ocorrido foi a transferência do bloco controlador da empresa – até então sob controle da União – para um consórcio privado. O bloco controlador da empresa é aquele que detém a maior parte das ações ordinárias da companhia, justamente as ações que dão direito a voto nas assembléias de acionistas e que, portanto, asseguram o controle político da empresa, através da nomeação do seu Conselho de Administração e de sua direção executiva.

O bloco controlador – detentor da maior parte das ações ordinárias da empresa – não necessariamente detém a maior parte das ações da sociedade anônima. Tudo depende da forma como a empresa se estrutura acionariamente.

No caso da Vale, atualmente a Valepar – que é a controladora da empresa – detém 32,9% do capital total da empresa. Os outros 67,1% estão distribuídos entre investidores brasileiros (25%), investidores estrangeiros (36,7%) e o próprio governo federal (5,4%).

Em termos de ações ordinárias, a Valepar detém 53,6% desse capital, enquanto investidores brasileiros (13,7%), estrangeiros (25,9%) e o governo federal (6,8%) ficam com os restantes 46,4%.

Mas, quem é, afinal, a Valepar?

Trata-se de um consórcio, atualmente – depois de muitas mudanças e escaramuças judiciais – composto por uma figura jurídica que tem o nome de Litel, uma outra de nome Elétron, além da Bradesco Participações, da empresa japonesa Mitsui e do BNDESPar.

A Litel é a mais importante integrante da Valepar, com 49% das ações do consórcio, e simplesmente é formada pelos fundos de pensão Previ, do Banco do Brasil; Petros, da Petrobrás; Funcef, da Caixa Econômica Federal; além da Fundação Cesp. E a Previ é o grande comando da Litel, pois possui 78,4% de suas ações ordinárias.

A Elétron – que é na verdade o grupo Opportunity – possui apenas 0,03% da Valepar.

A Bradespar, com 21,21%; a Mitsui, com 18,24%; e o BNDESPar, com 11,52%, complementam os 100% da Valepar.

Fica esclarecido, assim, que sob o ponto de vista acionário a Valepar – controladora da Vale – pode ser controlada pela Litel e pelo BNDESPar, pois juntos detêm 60,52% de suas ações ordinárias. E o controle político da Litel e do BNDESPar é de responsabilidade direta do governo federal, gestor do BNDES, e com total ascendência sobre o comando dos fundos de pensão, ainda mais em pleno governo do PT, hegemônico na representação sindical dos trabalhadores do Banco do Brasil, da Petrobrás e da Caixa Econômica Federal, e nos seus respectivos fundos de pensão.

A Vale do Rio Doce, portanto, é simbólica em todos os sentidos. Não somente das absolutas irregularidades do processo de privatizações, mas das nebulosas relações entre o governo Lula e o Bradesco, um dos principais financiadores da campanha eleitoral do atual presidente da República.

Afinal, por que a Litel – entenda-se, a Previ – e o BNDESPar não exercem os seus direitos e passam a comandar a Vale? Por que delegar o poder a um executivo do Bradesco?

Afirma-se a existência de um acordo entre os integrantes da Valepar. Quais os termos desse acordo? Quais as vantagens que a Litel e o BNDESPar podem gozar com uma renúncia de poder dessa natureza?

E as próprias relações do Bradesco com o BNDES? No primeiro semestre do ano passado, o BNDES aprovou uma linha de crédito de US$ 7,3 bilhões para a Vale, e logo após essa operação o então chefe de gabinete do presidente do banco transferiu-se para a alta direção da mineradora, passando a ocupar importante função no Comitê Estratégico da empresa. Simples coincidência?

Além de todas essas obscuras indagações, é o Bradesco peça-chave para o entendimento de uma das gritantes irregularidades da "privatização" da Vale do Rio Doce. Tendo participado do processo de avaliação e modelagem da venda da empresa, jamais poderia ter se beneficiado do fato de ter interesses associados à CSN, que vieram a lhe permitir se transformar em um dos controladores da mineradora.

Aliás, por que o governo Lula não orienta a Advocacia Geral da União a mudar a sua atuação nos diversos processos que defendem a nulidade do ato de venda da Vale, e passar a defender os interesses nacionais que exigem que a justiça se imponha, conforme o PT e seus dirigentes defendiam à época em que eram oposição?

Para a resposta a essas várias questões, para a consequente defesa do emprego de milhares de trabalhadores, e para a própria imagem de credibilidade da CUT, além das manifestações na porta da Vale, talvez seja essencial a pressão à frente da sede da Previ, do BNDES e principalmente do próprio Palácio do Planalto.

Paulo Passarinho, economista, é presidente do Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro.